segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O SOCORRO




















Lá fora,

um temporal se avizinha:
o céu negro,

ameaça de raios, trovões. O escambau.

Os fatos:
fim de mês, fim de ano, fim do mundo,
tantos desejos contidos, tantos nãos...

Nessas horas,
quando tudo conspira e dá errado e oprime,
eu a vejo chegar com o socorro: tanto amor!

Era o amor
transformado em arroz e feijão
e roupinhas de liquidação e carinho, muito mesmo.


foto: Shiko

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

SÓ CANSAÇO












Às vezes me bate um cansaço,
um baita,
e tedioso
cansaço.

Beirando a náusea,
a derrota,
e a desistência de tudo.

Cansaço...

(não dos bichos, das plantas, não do mundo em si)

Das instituições molengas,

da obrigatoriedade mofada
e do conformismo sacana.


Cansaço...

Vontade de sair andando,

sem documento
e nem lenço
.

Andar, só andar,
caminhar a esmo no mundo....


E só parar não sei onde,
nem quando,
nem como,
só quando acabasse o cansaço,

Nada não, só cansaço.



foto: Cao Guimarães

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

OU QUASE TANTO






















Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro...

Manuel Maria Barbosa du Bocage 1765-1805


Poesia,
o teu socorro
nada vale: desabafo,
podes ser,

ou és janela escancarada?


Incentivo para a morte

(ou quase tanto)

é isso mesmo
que eu recolho,
ou quase tanto.


Tipo,

as gotas da garoa, garoando,
(ou da lágrima)

escorrendo

entre um verso
e outro verso,

ou é sangue o que eu derramo?


"Habilidade",
"inspiração",

"visão do mundo"...


Nada vale o teu socorro:

sou eu quem sofre,
eu quem chora,
(ou quase tanto).


foto: "Contemplez ma larme", in Deviantart, by Versatis

sábado, 24 de outubro de 2009

A MINHA VILA















"Minha terra tem palmeiras
onde canta o Sabiá,
as aves que aqui gorjeiam
não gorjeiam como lá..."

Antonio Gonçalves Dias (1823-1864)



Talvez não existam palmeiras
,
nem sabiá.

Talvez seja só a saudade
que eu sinto de lá.

Dos bancos de pedra na sombra
do jacarandá.


Do sino da igreja matriz
- o mais triste que há.

Da procissão de casinhas

nem muito feias, nem lindas,
com seus alpendres
floridos,
e dos manacás.

Talvez não existam palmeiras,
nem sabiá.


Talvez eu só tenha saudade
porque já não há.


foto: Marcelle Franco Ferreira


domingo, 4 de outubro de 2009

IM(PARIDADE)
















Imparidade

é quando ocorre
a algum alguém não ser do bando.

Ocorre ser algo diverso do rebanho.


Seja em usar,
fruir, gozar de forma diferente.

Imparidade:
inevitável solidão correspondente.



foto: Misha Gordin

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AMORES DIVERSOS


Há amores diversos,
uns menos,
uns mais.

Amores perversos,
que ferem
e doem.

Amores tristonhos,
com uis
e com ais.

Amores que mudam,
que ficam,
que vão.

E amores fictícios:
platônicos
são.


foto: Amedeo Modigliani

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ROTINA


















Faz tanto tempo que a gente não conversa

às altas horas
sobre as nossas ninharias, bagatelas.

Que não se beija,
que não se abraça,
faz tanto tempo que a gente não namora!

Hoje é o trabalho,
é a condução...
faz tanto tempo que a gente já nem ama!

Um, calado, mudo.
Olhando um ponto bem além dessas paredes.

O outro então...
virou de lado e agora finge que dormiu.

E talvez durma.
E talvez sonhe.
E talvez tenha, em sonhos, o que não tem na vida.

foto: Helene Schjerfbeck