
Trem lotado
maldormido
fedendo a suor e cansaço
no sol
e no frio
e na chuva
tanta necessidade...
Lavou-se,
(um banho nos muda em pessoas)
Comer,
comeu do que tinha.
Deitou-se,com a dúvida dentro de si:
se aquilo era morte ou era vida.
foto: Artur do Cruzeiro Seixas

Um vento muito frio agora ruge:
árvores dobram,as flores caem,
folhas voam,
as aves fogem,
e a paisagem se arrepia, friorenta.Na rodovia, vaga a névoa
entre veículos
intrépidos;
na manhã cinza, o céu nem chega a ser azul.Faz tanto frio! Melhor nem ir, melhor ficar...Perto do fogo:
o chocolate,
o chá quentinho,
O edredon,
o cobertor,
o pijaminha,
E um filminho,
a pipoquinha,
ou um bom livro, e o meu amor.FOTO: Gregório Grubber

Eu hoje estou assim:
bem pessimista,
bem realista,bem consciente da minha circunferência.
Mas eu não era assim:
eu tinha sonhos,
tinha desejos,
vivia muito mais além das circunstâncias.
Só sei que, de repente,
(tão de repente)
algo quebrou,
algo deixou de ter, em mim, correspondência. Foto: Salvador Dalí
Um porão,quarto escuro, sem porta ou janela.E, mesmo havendo,não tendo a vontade de olhar...
Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.
A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.
Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.
A memória
adorada e fugaz dumas coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.Foto: Vilhelm Hammershøi

Tinha um perfumeem dias assimmeio de sol, meio de chuva,
ou nas manhãs de outono tais como as de agora.
Eu só não sei bemse era do pão, ou era da manteiga,
ou era da roseira,
ou era dos canteiros de hortelã, e poejo,
ou do café, que rescendia...
Sim, tinha um aroma
precioso
de maçã, de chocolate,ou mortadela,
na merenda boa dentro da lancheira.
Cheiro de estojo,
livro novo
e aventura,
e do uniforme, branco e azul-marinho.
Tinha o respeito,
o bença mãe, o bença pai,
o sim senhor, o sim senhora,
o cobertor, o suador, o sonho e o medo.
Sim, tinha um perfumeque subia,
e vinha vindo e inundava:cheiro de asseio e sabonete de alfazema,
que chamava a gente, enfim, prá ver o dia.foto: "Café"
É bom,toda manhã,
sair na rua e observar o mundo.
O sol,uma flor nova,alguém passando,e um passarinho se banhando numa poça.E ver,
toda manhã,
que tudo estava aqui antes de nós.
O sol,a mesma flor,alguém passando,e o passarinho que se banhava na poça.foto: Flávio Cruvinel Brandão
Dos ovos ocultos no meio das floresdum jardim oculto no meio da serraduma serra oculta no meio do mapaduma infância oculta no meio da vidaDa saudade imensa do que já não édo gostinho doce de doce de leitedo ovo cozido e o bacalhau e de tudotudo que eu não tive, e que o mundo me deve.
foto: Vida das Coisas