Domingo, 12 de Julho de 2009

A DÚVIDA


















Trem lotado
maldormido
fedendo a suor e cansaço


no sol
e no frio
e na chuva


tanta necessidade...


Lavou-se,

(um banho nos muda em pessoas)

Comer,
comeu do que tinha.

Deitou-se,
com a dúvida dentro de si:
se aquilo era morte ou era vida.

foto: Artur do Cruzeiro Seixas

Sábado, 4 de Julho de 2009

O CONVITE



















Um vento muito frio agora ruge:
árvores dobram,
as flores caem,
folhas voam,

as aves fogem,

e a paisagem se arrepia, friorenta.


Na rodovia, vaga a névoa
entre veículos
intrépidos;
na manhã cinza, o céu nem chega a ser azul.


Faz tanto frio!
Melhor nem ir, melhor ficar...

Perto do fogo:
o chocolate,

o chá quentinho,

O edredon,
o cobertor,
o pijaminha,


E um filminho,
a pipoquinha,
ou um bom livro, e o meu amor.


FOTO: Gregório Grubber

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

ALGO QUEBROU


















Eu hoje estou assim:

bem pessimista,

bem realista,

bem consciente da minha circunferência.

Mas eu não era assim:

eu tinha sonhos,

tinha desejos,

vivia muito mais além das circunstâncias.


Só sei que,
de repente,
(tão de repente)

algo quebrou,

algo deixou de ter, em mim, correspondência.


Foto: Salvador Dalí

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

OS MEUS FANTASMAS



















Um porão,
quarto escuro, sem porta ou janela.
E, mesmo havendo,
não tendo a vontade de olhar...

Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.

A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.

Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.

A memória

adorada e fugaz dumas
coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.



Foto: Vilhelm Hammershøi


Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

UM PERFUME

















Tinha um perfume

em dias assim
meio de sol, meio de chuva,
ou nas manhãs de outono tais como as de agora.


Eu só não sei bem

se era do pão, ou era da manteiga,
ou era da roseira,
ou era dos canteiros de hortelã
, e poejo,
ou do café, que rescendia.
..

Sim, tinha um aroma
precioso
de maçã, de chocolate
,
ou mortadela,
na merenda boa dentro da lancheira.


Cheiro de estojo,

livro novo
e aventura,

e do uniforme, branco e azul-marinho.


Tinha o respeito,

o bença mãe,
o bença pai,
o sim senhor, o sim senhora,

o cobertor, o suador, o sonho e o medo.


Sim, tinha um perfume

que subia,
e vinha vindo e inundava:

cheiro de asseio e sabonete de alfazema,
que chamava a gente, enfim, prá ver o dia.


foto: "Café"

Domingo, 12 de Abril de 2009

PERMANÊNCIA













É bom,
toda manhã,
sair na rua e observar o mundo.

O sol,
uma flor nova,
alguém passando,
e um passarinho se banhando numa poça.

E ver,
toda manhã,
que tudo estava aqui antes de nós.

O sol,
a mesma flor,
alguém passando,
e o passarinho que se banhava na poça.

foto: Flávio Cruvinel Brandão


PÁSCOAS















Dos ovos ocultos no meio das flores
dum jardim oculto no meio da serra
duma serra oculta no meio do mapa
duma infância oculta no meio da vida

Da saudade imensa do que já não é
do gostinho doce de doce de leite
do ovo cozido e o bacalhau e de tudo
tudo que eu não tive, e que o mundo me deve.

foto: Vida das Coisas