Quando eu fingia
era tão completamente
que até fingi que fingia
Mas a rima era estranha.
O mundo então era plano
e fofinho
e com babadinhos nas beiras
Só que não.
O mundo é assim,
é assado,
as coisas são o que são,
bom ou ruim, belo ou feio: é o que tem.
Eu desentendo o porquê de umas coisas
- tantas coisas!
que, ultimamente, as pessoas vêm fazendo.
Por exemplo, o conectar-se cedinho à internet
- logo cedo!
e ficar lá por horas e horas, "navegando"
A natureza, animais, e as pedras e plantas
- todo o mundo!
não são mais do que coisas na tela.
O ser humano, misterioso e tão soberano
- o ser humano!
digitando e ocultando os seus medos.
Se com palavras
não sei dizer...
digo com gestos
digo com gostos
digo com cheiros
a mão na mão
olho no olho
quase morrendo, ali gostando.
absoluto
como um abismo
como um orgasmo.
Eu daria o mundo e o fundo
em resumo
ia dar tudo
que eu tivesse
para ter de novo o engano
Engano bobo
e ingênuo
que o que havia
(ou nem havia)
ia existir eternamente
Pois agora
eu analiso
cara a cara
o que eu tinha
e já nem creio que era tanto
Um picolé
um arco-íris
o faz-de-conta
eram bastantes
eram tudo que eu preciso.
Sabor de sal.
Sabor de mar.
O teu bafo de alga
e teu hálito quente de concha
Tua onda me arrasta
entre pedras escuras de limo
Até bem mais além,
onde dormem antigos naufrágios.
foto: Nicoletta Ceccoli