terça-feira, 20 de setembro de 2011

EU QUERO ACREDITAR
















Eu quero acreditar
na nossa eternidade.

Que algo permanece
quando o corpo vai.

Que fica nesse mundo
ao menos a essência.

A alma, a energia,
o perfume da vida.

A marca registrada,
mas hoje, sei lá...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O MOMENTO PERFEITO













Liguei meu radinho
com os fones no ouvido
e fiquei ali de bobeira,
olhando o mundo existir...

Dei um tempo nas coisas,
na correria do dia
adiei o depois, esqueci o que já foi.

Era eu e mais eu, mais ninguém.

Fiquei ali curtindo
o instante, o agora
do hiato nascido da música
( "Morgen" de Strauss).

Um bando de maritacas
colorido e bagunceiro
nos galhos floridos do ipê:
um momento perfeito!





sábado, 2 de julho de 2011

QUANDO EU CHEGAR

















Quando eu chegar,
pode ser à tarde,
quando o sol se põe,
deixando para trás as sombras alongadas,

Pode ser à tarde,
bem naquela hora,
indecisa hora,
em que só alguns postes têm a luz acesa.

Ah, amado meu,
Ah, amada minha...

Esteja me esperando
como eu te espero
por toda uma vida,
com um beijo longo que apague a sombra que deixei na estrada.


foto: "Sombra" - Feozzy

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DECIDIDAMENTE
















Decididamente
eu não estou feliz.


Com o pouco leite

que a vaca da vida
me deu por direito.

Decididamente
eu quero muito mais.

Eu quero
ter um carro
e uma casa decente.

E ter coisas boas,

como roupas novas
e caras e quentes, e lindas e tudo.


Eu quero ter saúde,
dentes
e
cabelos,
ir à manicure, ao cabelereiro: quero cheirar bem.


E que ninguém me venha com aquele papinho
manjado
e cretino
do Homem Feliz.


Decididamente.


foto: Dólares

sexta-feira, 10 de junho de 2011

ESSAS PESSOAS















Essas pessoas felizes
com sorrisos homogêneos
plastificados na cara causam medo.

Elas não choram por nada?

Esses pré-adolescentes
quase-inocentes, risonhos,
em suas calças skinny muito me intrigam.

Qual é a cor dos seus sonhos?

Essas mulheres bonitas,
alegres e bem-vestidas,
mimadas e bem amadas - serão humanas?

foto: xilogravura de Fernanda Ozilak

sábado, 14 de maio de 2011

ESPINHOS




















Conforme eu penetro
fundo, bem mais fundo,
lá onde jamais se vê a luz do dia,

Fundo, bem mais fundo,
entre as más lembranças,
lá onde residem os meus pesadelos,

Eu ainda criança,
vendo pelas frestas,
junto das formigas e das joaninhas.

Escuto sussuros
e vejo absurdos
mundos paralelos, incompreensíveis.

Existia um ponto
onde estava o enigma
sempre me rondando, sempre se achegando.

Me vejo fugindo
e me escondendo,
me vejo sangrando e pisando em espinhos.

foto: Lucy Campbell

domingo, 1 de maio de 2011

BUSCA
















Eu ia andando assim.


Um pé depois do outro,

e o outro após o um.


A cavalo na incerteza

sobre um caminho novo.


Como quem

prova a rota

toda inteirinha nova, olhando tudo em volta,

e ia desconfiando.


Ia cheirando o ar,

riscando a canivete

o rumo, o trilho, o norte: a zona de conforto.


Aonde é que eu vou agora, ó vida?


Onde é que eu atrelo o burro, e que eu desço da sela,

e entrego a rédea a alguém,

e relaxo um pouquinho,

e descanso um pouquinho?



sábado, 19 de março de 2011

O IMPENSÁVEL




















Noite, escura noite que inicia,

só o medo,

a incerteza,

a noite escura, noite negra e fria.

O frio que fere a pele não-curtida

de quem fica,

de quem parte,

o frio de ter a alma dividida.


A relativa paz de quem desiste,

resignação

e/ou impotência

diante do impensável, que sim existe.


foto: Edvard Munch

domingo, 6 de março de 2011

MATEMÁTICA
















Dura matemática

a vida daquelas

que trabalham fora
e que trabalham dentro
porque têm família.

Que acordam cedo,
pegam trem lotado

e trabalham dobrado para
ganhar metade.

Que, chegando em casa,
(no ônibus cheio)
são cama-mesa-e-banho na mão do marido.

Dura matemática
o servir cansada
mas servir sorrindo.


foto: Salário


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A COISA


















A importância da coisa escapa

feito areia amarela entre os dedos.


Feito o sumo amarelo da manga

escorrendo-grudando nas mãos.


A importância da coisa.


Isolada,

a tal coisa não é lá grande coisa.


Entretanto

a destruição que ela causa...


foto: Cassiano C. Silva

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A DOR



















Se fosse bom, não precisava testemunha,
se fosse certo, não seria tão gostoso,
se fosse eu, não pensaria duas vezes.

Ah, a dor de ser...

A dor de ser humanamente razoável,
de re-fletir,
de re-frear,
de re-tomar.

Todo frangalho certamente foi inteiro,
todo bagulho certamente teve um dono,
toda a ciência é só isso, ou nem é isso.


foto: Zhang Dali

sábado, 29 de janeiro de 2011

AUSENTE






acordo de noite
numa noite triste
sentindo-me triste
e querendo você aqui do meu lado

eu ainda guardo
o melhor bocado
de tudo que eu como

de tudo que eu bebo para você ausente
 

e o travesseiro
ainda tem o cheiro
de lavanda e rosa
de areia e sal de madeira e espinhos

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O INEVITÁVEL


Eu ia andando
pela calçada
com a sombra da minha sombra
na solidão paralela que me contorna.

Do outro lado da rua
- a outra margem -
o inevitável chegou
como ele sempre aparece - inevitável.

Sentamos os dois,
o inevitável e eu,
mão na mão, olho no olho,
nos reconhecendo - já somos velhos amigos.

foto: WEB

domingo, 5 de dezembro de 2010

MUDANÇAS


Eu já mudei tanto,
nesses tantos anos...


Eu mudei de casa,
mudei de cidade,
mudei de estado, mudei de país.


E, nessas mudanças,
encaixotei tanto, perdi tanta coisa...


Aquela boneca da cara pintada,
o cabelo loiro,
a boca vermelha,
os olhos azuis...


Perdi alguns livros.

Uns de poesia,
cheios de mensagens,
cheios de inocência,
com florzinhas secas e papéis de bala.


E fotografias. Cartas perfumadas.


Mas, pior que tudo: eu me perdi de mim.




foto: empty box, web

sábado, 20 de novembro de 2010

DIGO NÃO


Já eu, me dano:
eu digo não ao medo
(eu ergo o dedo)
à sanha do gambé

Um não à plasta amorfa,
à folha amarfanhada,
à grana do cartel,
à grana do bordel

Não,
não à morte matada
(o cento e vinte e um)
ao roubo,
o estelionato,
e às manhas do pedófilo

à miséria,
(a fome)
essa uma, a messalina,
que nos pariu a todos, ao soldado e a mim.


também publicado no blog cabeça MIRADA ANTERIOR

GARATUJAS



Essas sombras
que desenham
garatujas sobre a mesa,

quando o veneno das taças chega ao fim


silenciosas sobre o linho da toalha
quase anulam o sorriso imaginário


um poema doentio jaz inédito

e trivial

no guardanapo de papel.
( Postado no blog cabeça MIRADA ANTERIOR )

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

GAIOLA




Tem um cara aqui no prédio
um imoral
que cria um canário preso
numa gaiola.

O pobre bichinho preso
na gaiolinha
canta, canta e canta
o dia inteiro.

O pobre pássaro preso
numa cadeia
canta principalmente
no fim do dia.

Quando os outros passarinhos
em liberdade
despedem-se uns dos outros
voltando ao ninho.

O pobre canário preso
na gaiolinha
canta, canta e mais canta
ou será que chora?

foto: Origami

sábado, 6 de novembro de 2010

VOCÊ MUDOU


Você mudou...
Mudaram coisas
importantes
em você, que eu adorava.

O tom da voz,
a entonação,
e aquele jeito de sorrir fechando os olhos.

Você mudou,
envelheceu
e o cabelo começou a branquear.

Mas, porém, contudo e todavia...

Ficou o jeito
autoritário
e insuportável de olhar dentro da gente.

E aquela força
irresistível
que me arrasta para o centro. Essa ficou.
foto: web

TOMA-LÁ-DÁ-CÁ






Ai, ai, ai,
quem me dera
enveredar de vez
numa paixão daquelas.

Que
fazem da pessoa
um exemplo ao contrário,
um molde a não seguir.

Uma paixão daquelas
que entra
e que se instala no teu subterrâneo
e manda o resto às favas.

Sem usos,
nem costumes,
sem decoro mofado,
nem as teias de aranha das vias regulares.

Ai, ai, ai,
quem me dera
um toma-lá-dá-cá
um toma-cá-dá-lá...

domingo, 24 de outubro de 2010

NO METRÔ


Faz quinze minutos
que nos encontramos
dentro do metrô.
(a vitrine móvel de tipos faceiros)

Eu não te conheço,
não sei teus espinhos
nem tuas delícias...

(caixa de surpresas, isso é o que tu és)

Tu não me conheces,
não sabes meus medos
nem as minhas fugas...

(ó porta sem chave que existe em mim).