segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O MOMENTO PERFEITO













Liguei meu radinho
com os fones no ouvido
e fiquei ali de bobeira,
olhando o mundo existir...

Dei um tempo nas coisas,
na correria do dia
adiei o depois, esqueci o que já foi.

Era eu e mais eu, mais ninguém.

Fiquei ali curtindo
o instante, o agora
do hiato nascido da música
( "Morgen" de Strauss).

Um bando de maritacas
colorido e bagunceiro
nos galhos floridos do ipê:
um momento perfeito!





sábado, 2 de julho de 2011

QUANDO EU CHEGAR

















Quando eu chegar,
pode ser à tarde,
quando o sol se põe,
deixando para trás as sombras alongadas,

Pode ser à tarde,
bem naquela hora,
indecisa hora,
em que só alguns postes têm a luz acesa.

Ah, amado meu,
Ah, amada minha...

Esteja me esperando
como eu te espero
por toda uma vida,
com um beijo longo que apague a sombra que deixei na estrada.


foto: "Sombra" - Feozzy

sexta-feira, 24 de junho de 2011

DECIDIDAMENTE
















Decididamente
eu não estou feliz.


Com o pouco leite

que a vaca da vida
me deu por direito.

Decididamente
eu quero muito mais.

Eu quero
ter um carro
e uma casa decente.

E ter coisas boas,

como roupas novas
e caras e quentes, e lindas e tudo.


Eu quero ter saúde,
dentes
e
cabelos,
ir à manicure, ao cabelereiro: quero cheirar bem.


E que ninguém me venha com aquele papinho
manjado
e cretino
do Homem Feliz.


Decididamente.


foto: Dólares

sexta-feira, 10 de junho de 2011

ESSAS PESSOAS















Essas pessoas felizes
com sorrisos homogêneos
plastificados na cara causam medo.

Elas não choram por nada?

Esses pré-adolescentes
quase-inocentes, risonhos,
em suas calças skinny muito me intrigam.

Qual é a cor dos seus sonhos?

Essas mulheres bonitas,
alegres e bem-vestidas,
mimadas e bem amadas - serão humanas?

foto: xilogravura de Fernanda Ozilak

sábado, 14 de maio de 2011

ESPINHOS




















Conforme eu penetro
fundo, bem mais fundo,
lá onde jamais se vê a luz do dia,

Fundo, bem mais fundo,
entre as más lembranças,
lá onde residem os meus pesadelos,

Eu ainda criança,
vendo pelas frestas,
junto das formigas e das joaninhas.

Escuto sussuros
e vejo absurdos
mundos paralelos, incompreensíveis.

Existia um ponto
onde estava o enigma
sempre me rondando, sempre se achegando.

Me vejo fugindo
e me escondendo,
me vejo sangrando e pisando em espinhos.

foto: Lucy Campbell