sexta-feira, 10 de junho de 2011

ESSAS PESSOAS















Essas pessoas felizes
com sorrisos homogêneos
plastificados na cara causam medo.

Elas não choram por nada?

Esses pré-adolescentes
quase-inocentes, risonhos,
em suas calças skinny muito me intrigam.

Qual é a cor dos seus sonhos?

Essas mulheres bonitas,
alegres e bem-vestidas,
mimadas e bem amadas - serão humanas?

foto: xilogravura de Fernanda Ozilak

sábado, 14 de maio de 2011

ESPINHOS




















Conforme eu penetro
fundo, bem mais fundo,
lá onde jamais se vê a luz do dia,

Fundo, bem mais fundo,
entre as más lembranças,
lá onde residem os meus pesadelos,

Eu ainda criança,
vendo pelas frestas,
junto das formigas e das joaninhas.

Escuto sussuros
e vejo absurdos
mundos paralelos, incompreensíveis.

Existia um ponto
onde estava o enigma
sempre me rondando, sempre se achegando.

Me vejo fugindo
e me escondendo,
me vejo sangrando e pisando em espinhos.

foto: Lucy Campbell

domingo, 1 de maio de 2011

BUSCA
















Eu ia andando assim.


Um pé depois do outro,

e o outro após o um.


A cavalo na incerteza

sobre um caminho novo.


Como quem

prova a rota

toda inteirinha nova, olhando tudo em volta,

e ia desconfiando.


Ia cheirando o ar,

riscando a canivete

o rumo, o trilho, o norte: a zona de conforto.


Aonde é que eu vou agora, ó vida?


Onde é que eu atrelo o burro, e que eu desço da sela,

e entrego a rédea a alguém,

e relaxo um pouquinho,

e descanso um pouquinho?



sábado, 19 de março de 2011

O IMPENSÁVEL




















Noite, escura noite que inicia,

só o medo,

a incerteza,

a noite escura, noite negra e fria.

O frio que fere a pele não-curtida

de quem fica,

de quem parte,

o frio de ter a alma dividida.


A relativa paz de quem desiste,

resignação

e/ou impotência

diante do impensável, que sim existe.


foto: Edvard Munch

domingo, 6 de março de 2011

MATEMÁTICA
















Dura matemática

a vida daquelas

que trabalham fora
e que trabalham dentro
porque têm família.

Que acordam cedo,
pegam trem lotado

e trabalham dobrado para
ganhar metade.

Que, chegando em casa,
(no ônibus cheio)
são cama-mesa-e-banho na mão do marido.

Dura matemática
o servir cansada
mas servir sorrindo.


foto: Salário