domingo, 1 de maio de 2011

BUSCA
















Eu ia andando assim.


Um pé depois do outro,

e o outro após o um.


A cavalo na incerteza

sobre um caminho novo.


Como quem

prova a rota

toda inteirinha nova, olhando tudo em volta,

e ia desconfiando.


Ia cheirando o ar,

riscando a canivete

o rumo, o trilho, o norte: a zona de conforto.


Aonde é que eu vou agora, ó vida?


Onde é que eu atrelo o burro, e que eu desço da sela,

e entrego a rédea a alguém,

e relaxo um pouquinho,

e descanso um pouquinho?



sábado, 19 de março de 2011

O IMPENSÁVEL




















Noite, escura noite que inicia,

só o medo,

a incerteza,

a noite escura, noite negra e fria.

O frio que fere a pele não-curtida

de quem fica,

de quem parte,

o frio de ter a alma dividida.


A relativa paz de quem desiste,

resignação

e/ou impotência

diante do impensável, que sim existe.


foto: Edvard Munch

domingo, 6 de março de 2011

MATEMÁTICA
















Dura matemática

a vida daquelas

que trabalham fora
e que trabalham dentro
porque têm família.

Que acordam cedo,
pegam trem lotado

e trabalham dobrado para
ganhar metade.

Que, chegando em casa,
(no ônibus cheio)
são cama-mesa-e-banho na mão do marido.

Dura matemática
o servir cansada
mas servir sorrindo.


foto: Salário


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A COISA


















A importância da coisa escapa

feito areia amarela entre os dedos.


Feito o sumo amarelo da manga

escorrendo-grudando nas mãos.


A importância da coisa.


Isolada,

a tal coisa não é lá grande coisa.


Entretanto

a destruição que ela causa...


foto: Cassiano C. Silva

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A DOR



















Se fosse bom, não precisava testemunha,
se fosse certo, não seria tão gostoso,
se fosse eu, não pensaria duas vezes.

Ah, a dor de ser...

A dor de ser humanamente razoável,
de re-fletir,
de re-frear,
de re-tomar.

Todo frangalho certamente foi inteiro,
todo bagulho certamente teve um dono,
toda a ciência é só isso, ou nem é isso.


foto: Zhang Dali