domingo, 13 de fevereiro de 2011

A DOR



















Se fosse bom, não precisava testemunha,
se fosse certo, não seria tão gostoso,
se fosse eu, não pensaria duas vezes.

Ah, a dor de ser...

A dor de ser humanamente razoável,
de re-fletir,
de re-frear,
de re-tomar.

Todo frangalho certamente foi inteiro,
todo bagulho certamente teve um dono,
toda a ciência é só isso, ou nem é isso.


foto: Zhang Dali

sábado, 29 de janeiro de 2011

AUSENTE






acordo de noite
numa noite triste
sentindo-me triste
e querendo você aqui do meu lado

eu ainda guardo
o melhor bocado
de tudo que eu como

de tudo que eu bebo para você ausente
 

e o travesseiro
ainda tem o cheiro
de lavanda e rosa
de areia e sal de madeira e espinhos

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O INEVITÁVEL


Eu ia andando
pela calçada
com a sombra da minha sombra
na solidão paralela que me contorna.

Do outro lado da rua
- a outra margem -
o inevitável chegou
como ele sempre aparece - inevitável.

Sentamos os dois,
o inevitável e eu,
mão na mão, olho no olho,
nos reconhecendo - já somos velhos amigos.

foto: WEB

domingo, 5 de dezembro de 2010

MUDANÇAS


Eu já mudei tanto,
nesses tantos anos...


Eu mudei de casa,
mudei de cidade,
mudei de estado, mudei de país.


E, nessas mudanças,
encaixotei tanto, perdi tanta coisa...


Aquela boneca da cara pintada,
o cabelo loiro,
a boca vermelha,
os olhos azuis...


Perdi alguns livros.

Uns de poesia,
cheios de mensagens,
cheios de inocência,
com florzinhas secas e papéis de bala.


E fotografias. Cartas perfumadas.


Mas, pior que tudo: eu me perdi de mim.




foto: empty box, web

sábado, 20 de novembro de 2010

DIGO NÃO


Já eu, me dano:
eu digo não ao medo
(eu ergo o dedo)
à sanha do gambé

Um não à plasta amorfa,
à folha amarfanhada,
à grana do cartel,
à grana do bordel

Não,
não à morte matada
(o cento e vinte e um)
ao roubo,
o estelionato,
e às manhas do pedófilo

à miséria,
(a fome)
essa uma, a messalina,
que nos pariu a todos, ao soldado e a mim.


também publicado no blog cabeça MIRADA ANTERIOR