segunda-feira, 5 de abril de 2010

VOLTANDO




















Voltando atrás,
bem mais atrás,
onde a memória dolorida ainda alcança

e estar sentada num degrau
olhando o mundo revirado em bois bravios

e o medo,
e o medo,
e o medo,

e o cheiro ruim-gostoso que sai da boiada,

e o corpo nu ralando a pedra
e a boca em gozo arreganhada para os astros,

eu, rodeada de mil vagalumes.





foto: Dani Torrent Ilustración

sábado, 3 de abril de 2010

ADORAÇÃO




















Eu te adoro
quando estamos em silêncio:
olho no olho, mão na mão,
alma na alma.

A conexão que existe sempre entre nós.

Existe apego
e muito mais, cumplicidade.

Não é preciso
dizer nada,
ou fazer nada,
eu reconheço cada palmo do teu corpo,
cada pinta,
cada escara.

E te adoro,
assim, do jeito que tu és.

Pois já conheço
quase todos teus pecados,

e muitos deles te ajudei a cometer.

foto: Charles Blackman

segunda-feira, 29 de março de 2010

SÓ DE VEZ EM QUANDO
















poema meu in MIRADA ANTERIOR, o blog cabeça


Só de vez em quando,

(quando muda a lua)

eu grudo a minha boca na tua orelha,


E sussurro besteiras
(obscenidades)
mio, gemo e urro feito besta-fera,

Mas, só de vez em quando,
(eu dou de mariposa)
de mulher de bandido e peço pra apanhar,


Aceito as carícias
(mais despudoradas)

como se eu fosse flor e fosse primavera.


foto: Marcelo Grassmann

sábado, 6 de março de 2010

PERSPECTIVA
















Eu quero que tenhas,
(se possível for)
uma perspectiva.

E olhos para ver,
e ouvidos pra ouvir a versão do outro.

De forma sincera. Sem medo de errar.

Para olhar o mar,
andar pela praia recolhendo conchas
sem fins lucrativos, só pelo prazer.

Ver o pôr-do-sol,
e contemplar o céu em noites de verão.

E dar mais valor
nessas coisas pequenas
que nos distanciam do bicho que somos.

AS PALAVRAS, ÀS VEZES














As palavras, às vezes,
se deitam,
no meio da noite.

E fecham os olhos,
e fingem que dormem: as palavras cochilam.

Elas viram para o canto,
as palavras,
escasseiam os versos e contos e fábulas.

O mundo se aquieta por falta de verbos.

Pode ser que as palavras
se usem nos sonhos.
Tem sonhos falados e tem sonhos mudos.

As palavras,
às vezes,
se encolhem num canto escuro da noite,
e o mundo ressona em silêncio, enfadado.

foto: Rob Evans