quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

SEM RUMO




"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar..."

(Candeia)











Saio de casa

sem rumo,
nada de planos, sem planos...

No bolso esquerdo
uns reais,
um desespero e não mais.


Meu corpo vai,
ele vem,
no condomínio, o viaduto, a rodovia,

Meu guarda-chuva
anda em hipérbole,

cansadíssimo de errar.

foto: Cassy







segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O SOCORRO



















Lá fora,
se avizinha, feio, o temporal.
No céu negro,

a ameaça dos raios, trovões. O escambau.

Os fatos:
fim de mês, fim de ano, fim do mundo,
tantos desejos contidos,

tantos nãos...

Nessas horas,
quando tudo conspira e dá errado e oprime,
eu a vejo chegar com o socorro: tanto amor!

É o amor
transformado em arroz e feijão.

É o carinho
em roupinhas de liquidação.




foto: Shiko

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

SÓ CANSAÇO












Às vezes me bate um cansaço,
um baita,
e tedioso
cansaço.

Beirando a náusea,
a derrota,
ou desistência de tudo.

Cansaço...

Não dos bichos,
não das plantas,
e não do mundo em si.

Mas das instituições molengas,

a obrigatoriedade mofada
e o conformismo sacana.


Vontade de sair andando,

sem documento
e nem lenço
.

De só andar, andar,
andar a esmo no mundo....


E só parar não sei onde,
e só parar não sei quando,
e só parar não sei como,
quando acabasse o cansaço,



foto: Cao Guimarães

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

OU QUASE TANTO






















Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro...

Manuel Maria Barbosa du Bocage 1765-1805


Poesia,
o teu socorro
nada vale: desabafo,
podes ser,

ou és janela escancarada?


Incentivo para a morte

(ou quase tanto)

é isso mesmo
que eu recolho,
ou quase tanto.


Tipo,

as gotas da garoa, garoando,
(ou da lágrima)

escorrendo

entre um verso
e outro verso,

ou é sangue o que eu derramo?


"Habilidade",
"inspiração",

"visão do mundo"...


Nada vale o teu socorro:

sou eu quem sofre,
eu quem chora,
(ou quase tanto).


foto: "Contemplez ma larme", in Deviantart, by Versatis

sábado, 24 de outubro de 2009

SAUDADE


















"Minha terra tem palmeiras
onde canta o Sabiá..."

Antonio Gonçalves Dias (1823-1864)




Talvez não existam palmeiras,
nem sabiá,
talvez seja só a saudade
que eu tenho de lá.

Dos bancos de pedra na sombra
do jacarandá,
do sino da igreja matriz
- o mais triste que há.

Da procissão de casinhas
nem muito feias, nem lindas,
com seus alpendres floridos,
e dos manacás.

Talvez lá não existam palmeiras,
e nem sabiá.
talvez seja só a saudade
do que já não há.

foto: Marcelle Franco Ferreira