quinta-feira, 29 de outubro de 2009

OU QUASE TANTO






















Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro...

Manuel Maria Barbosa du Bocage 1765-1805


Poesia,
o teu socorro
nada vale: desabafo,
podes ser,

ou és janela escancarada?


Incentivo para a morte

(ou quase tanto)

é isso mesmo
que eu recolho,
ou quase tanto.


Tipo,

as gotas da garoa, garoando,
(ou da lágrima)

escorrendo

entre um verso
e outro verso,

ou é sangue o que eu derramo?


"Habilidade",
"inspiração",

"visão do mundo"...


Nada vale o teu socorro:

sou eu quem sofre,
eu quem chora,
(ou quase tanto).


foto: "Contemplez ma larme", in Deviantart, by Versatis

sábado, 24 de outubro de 2009

SAUDADE


















"Minha terra tem palmeiras
onde canta o Sabiá..."

Antonio Gonçalves Dias (1823-1864)




Talvez não existam palmeiras,
nem sabiá,
talvez seja só a saudade
que eu tenho de lá.

Dos bancos de pedra na sombra
do jacarandá,
do sino da igreja matriz
- o mais triste que há.

Da procissão de casinhas
nem muito feias, nem lindas,
com seus alpendres floridos,
e dos manacás.

Talvez lá não existam palmeiras,
e nem sabiá.
talvez seja só a saudade
do que já não há.

foto: Marcelle Franco Ferreira


domingo, 4 de outubro de 2009

IM(PARIDADE)

Imparidade

é quando ocorre a algum alguém não ser do bando. Ocorre ser algo diverso do rebanho. Seja em usar, fruir, gozar de forma diferente. Imparidade: inevitável solidão correspondente. foto: Misha Gordin

terça-feira, 29 de setembro de 2009

AMORES DIVERSOS


Há amores diversos,
uns menos,
uns mais.

Amores perversos,
que ferem
e doem.

Amores tristonhos,
com uis
e com ais.

Amores que mudam,
que ficam,
que vão.

E amores fictícios:
platônicos
são.


foto: Amedeo Modigliani

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ROTINA


















Faz tanto tempo que a gente não conversa

às altas horas
sobre as nossas ninharias, bagatelas.

Que não se beija,
que não se abraça,
faz tanto tempo que a gente não namora!

Hoje é o trabalho,
é a condução...
faz tanto tempo que a gente já nem ama!

Um, calado, mudo.
Olhando um ponto bem além dessas paredes.

O outro então...
virou de lado e agora finge que dorme.

E talvez durma.
E talvez sonhe.
E talvez tenha, em sonhos, o que não tem na vida.

foto: Helene Schjerfbeck