Talvez numa outra vida,
anterior a essa,
tenhamos sido amantes.
Tenhamos vivido um amorproibido,desesperado,
enfim, morrido de amor.
Talvez tenhamos lembrançade tudo aquiloe por isso, cautelosos,tenhamos medo de amar...foto: Anton Fateev

Trem lotado
maldormido
fedendo a suor e cansaço
no sol
e no frio
e na chuva
tanta necessidade...
Lavou-se,
(um banho nos muda em pessoas)
Comer,
comeu do que tinha.
Deitou-se,com a dúvida dentro de si:
se aquilo era morte ou era vida.
foto: Artur do Cruzeiro Seixas

Um vento muito frio agora ruge:
árvores dobram,as flores caem,
folhas voam,
as aves fogem,
e a paisagem se arrepia, friorenta.Na rodovia, vaga a névoa
entre veículos
intrépidos;
na manhã cinza, o céu nem chega a ser azul.Faz tanto frio! Melhor nem ir, melhor ficar...Perto do fogo:
o chocolate,
o chá quentinho,
O edredon,
o cobertor,
o pijaminha,
E um filminho,
a pipoquinha,
ou um bom livro, e o meu amor.FOTO: Gregório Grubber

Eu hoje estou assim:
bem pessimista,
bem realista,bem consciente da minha circunferência.
Mas eu não era assim:
eu tinha sonhos,
tinha desejos,
vivia muito mais além das circunstâncias.
Só sei que, de repente,
(tão de repente)
algo quebrou,
algo deixou de ter, em mim, correspondência. Foto: Salvador Dalí
Um porão,
quarto escuro, sem porta ou janela.
E, mesmo havendo,
não tendo a vontade de olhar...
Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.
A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.
Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.
A memória
adorada e fugaz dumas coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.
Foto: Vilhelm Hammershøi