domingo, 19 de julho de 2009

TALVEZ NUMA OUTRA VIDA
















Talvez numa outra vida,
anterior a essa,
tenhamos sido amantes.

Tenhamos vivido um amor
proibido,
desesperado,
enfim, morrido de amor.

Talvez tenhamos lembrança
de tudo aquilo
e por isso, cautelosos,
tenhamos medo de amar...

foto: Anton Fateev

domingo, 12 de julho de 2009

A DÚVIDA


















Trem lotado
maldormido
fedendo a suor e cansaço


no sol
e no frio
e na chuva


tanta necessidade...


Lavou-se,

(um banho nos muda em pessoas)

Comer,
comeu do que tinha.

Deitou-se,
com a dúvida dentro de si:
se aquilo era morte ou era vida.

foto: Artur do Cruzeiro Seixas

sábado, 4 de julho de 2009

CONVITE



















Um vento muito frio agora ruge:
árvores dobram,
as flores caem,
folhas voam,

as aves fogem,

e a paisagem se arrepia, friorenta.


Na rodovia, vaga a névoa
entre veículos
intrépidos;
na manhã cinza, o céu nem chega a ser azul.


Faz tanto frio!
Melhor nem ir, melhor ficar...

Perto do fogo:
o chocolate,

o chá quentinho,

O edredon,
o cobertor,
o pijaminha,


E um filminho,
a pipoquinha,
ou um bom livro, e o meu amor.


FOTO: Gregório Grubber

quarta-feira, 13 de maio de 2009

ALGO QUEBROU


















Eu hoje estou assim:

bem pessimista,

bem realista,

bem consciente da minha circunferência.

Mas eu não era assim:

eu tinha sonhos,

tinha desejos,

vivia muito mais além das circunstâncias.


Só sei que,
de repente,
(tão de repente)

algo quebrou,

algo deixou de ter, em mim, correspondência.


Foto: Salvador Dalí

segunda-feira, 4 de maio de 2009

OS MEUS FANTASMAS



















Um porão,
quarto escuro, sem porta ou janela.
E, mesmo havendo,
não tendo a vontade de olhar...

Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.

A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.

Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.

A memória

adorada e fugaz dumas
coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.



Foto: Vilhelm Hammershøi