segunda-feira, 4 de maio de 2009

OS MEUS FANTASMAS



















Um porão,
quarto escuro, sem porta ou janela.
E, mesmo havendo,
não tendo a vontade de olhar...

Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.

A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.

Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.

A memória

adorada e fugaz dumas
coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.



Foto: Vilhelm Hammershøi


segunda-feira, 27 de abril de 2009

UM PERFUME

















um certo perfume

em dias assim
meio que de sol
meio que de chuva

nas manhãs de ontem
ou antes de ontem

eu só não sei bem

se era do pão 
era da manteiga

era do café
era da roseira
ou era do canteiro de hortelã
e poejo...

doce e precioso
cheiro de maçã

e de chocolate
e de mortadela
dentro da lancheira


cheiro de estojo 

de lápis de cor
e de livro novo
cheiro de aventura

uniforme  branco e azul-marinho


tinha o  respeito:
 
tinha o bença mãe
 
tinha o bença pai
 
e o sim senhor e o sim senhora
 
tinha o vai com deus e o fique com ele

havia um perfume
doce que subia
e que vinha vindo 

e que vinha vindo
e inundava tudo
de saudade e asseio.

foto: "Café"

domingo, 12 de abril de 2009

PERMANÊNCIA













É bom,
toda manhã,
sair na rua e observar o mundo.

O sol,
uma flor nova,
alguém passando,
e um passarinho banhando na poça.

Notar,
toda manhã,
que tudo estava aqui antes de nós.

O sol,
a mesma flor,
alguém passando,
e o passarinho que se banhava na poça.

foto: Flávio Cruvinel Brandão


PÁSCOAS















Dos ovos ocultos no meio das flores
dum jardim oculto no meio da serra
duma serra oculta no meio do mapa
duma infância oculta no meio da vida

Da saudade imensa do que já não é
do gostinho doce de doce de leite
do ovo cozido e o bacalhau e de tudo
tudo que eu não tive, e que o mundo me deve.

foto: Vida das Coisas

quinta-feira, 26 de março de 2009

INÚTIL
















Volta!

Eu chorava
e te chamava, e te pedia.


Volta!
Eu me agarrava
num presságio, ou fantasia.

Inútil!
Os teus passos ecoaram na calçada,
na noite vazia.


foto: Gregório Gruber