quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

MEU PRÓXIMO AMOR














Meu próximo amor há de ser muito intenso
,
mais que todos os outros
,
porque ele terá um não sei quê de raro
,
de extraordinário
, de nunca antes visto,

Ele deixará todos os meus outros amores

(e eles foram tantos!)

numa nebulosa de inveja e de espanto.


Meu próximo amor há de trazer tristeza,
de causar intriga,

porque talvez nasça do fim de outro caso
,
ou cause um divórcio
,

E acusações graves
,
que talvez provoquem a ira dos deuses

(esses agourentos)

porque, apesar de tudo, ele vai ser enorme.


Meu próximo amor será definitivo:

até o fim da vida,

Nem vai precisar de grandes cerimônias,

nem de testemunhas,

papéis em cartório;


Meu próximo amor será tão evidente

(ou tão eloqüente)

que, subitamente, seremos amantes.


foto: Misha Gordin

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

NEM SÓ DE PÃO



Nem só
de pão vive o homem.
Eu sei.

Mas vive também de sonhos.
Sonhando,
o homem viaja mundos.

Faz tempo que ando sonhando
bons sonhos.
Um mundo!

Sonhar é meio que ter,
sem ainda ter
nem o pão.


foto: "O prisioneiro" - Evelyn Williams

domingo, 8 de fevereiro de 2009

AINDA BEM
















Ainda bem
que a gente tem
certas lembranças.

Um pôr-do- sol,
um arco-íris,
cheiro doce de marolo pelo ar.

Eventual riquezazinha miudinha
que sobrou,
da infância pobre do que é material.

Malgrado uns contras doloridos,
no fim das contas
sempre restam alguns prós...



foto: "Pôr-do-sol" - Marcelle Franco Ferreira

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

TARDE NO QUINTAL















Tarde no quintal.
Verão,
calor de rachar mamona!


O tempo passa molenga
vai passando,
vai passando...

Lá e-vem
um grilo morto
no reguinho d'água
evem escorrendo do tanque
às touceiras de poejo, e aos canteiros de malva.

Calor...
O hipnótico e sentido soluço

das cigarras,
e a longa fila indiana

de formigas
e uns pardaizinhos sem dono, espojando-se na areia.

Calor...
O meu olhar espichado
espia

e meio que vê,

(meio que não)

por riba do alto muro.


O muro que aparta os dois mundos:

o mundo de lá,

e mundo de cá.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O DESFECHO






















Ai! que eu chorava...

E, agarrando-me à tua camisa
num soluço convulso, eu dizia:


- Não me deixe!

Querendo alongar os minutos,
eu mentia
que tinha falta de ar,

que o coração me doía,

que não conseguia respirar...


Desespero,
tragédia,

homicídio,

suicídio, idéias funestas.

No desfecho,
os teus passos lá fora:

longe, mais longe, mais longe...


Ai! que não se morre assim,
quando se deveria morrer.


foto: "Uivando" - Paula Rego