domingo, 8 de fevereiro de 2009

AINDA BEM
















Ainda bem
que a gente tem
certas lembranças.

Um pôr-do- sol,
um arco-íris,
cheiro doce de marolo pelo ar.

Eventual riquezazinha miudinha
que sobrou,
da infância pobre do que é material.

Malgrado uns contras doloridos,
no fim das contas
sempre restam alguns prós...



foto: "Pôr-do-sol" - Marcelle Franco Ferreira

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

TARDE NO QUINTAL















Tarde no quintal.
Verão,
calor de rachar mamona!


O tempo passa molenga
vai passando,
vai passando...

Lá e-vem
um grilo morto
no reguinho d'água
evem escorrendo do tanque
às touceiras de poejo, e aos canteiros de malva.

Calor...
O hipnótico e sentido soluço

das cigarras,
e a longa fila indiana

de formigas
e uns pardaizinhos sem dono, espojando-se na areia.

Calor...
O meu olhar espichado
espia

e meio que vê,

(meio que não)

por riba do alto muro.


O muro que aparta os dois mundos:

o mundo de lá,

e mundo de cá.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O DESFECHO






















Ai! que eu chorava...

E, agarrando-me à tua camisa
num soluço convulso, eu dizia:


- Não me deixe!

Querendo alongar os minutos,
eu mentia
que tinha falta de ar,

que o coração me doía,

que não conseguia respirar...


Desespero,
tragédia,

homicídio,

suicídio, idéias funestas.

No desfecho,
os teus passos lá fora:

longe, mais longe, mais longe...


Ai! que não se morre assim,
quando se deveria morrer.


foto: "Uivando" - Paula Rego

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O NOSSO FIM














Eu ia criando
um caso
e tecendo o nosso acaso.

Era
absoluta verdade
(a mentira)
contanto que nos contivesse
.

Criei lembranças

saudades,
fotografias, colagens,
nosso álbum de família.

Criei enredos,

e tramas,
eu fiz projetos, roteiros,
só não fiz o nosso
fim.

foto: "Hope" - Banski

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

MIRAGENS






















Se ainda fosse tua a sombra
que se alonga,
no último raio da tardinha que se finda
- que tarde linda!

E
mbora tenha aquele teu andar gingado
feito um marujo.

Se ainda fosse a tua voz que agora escuto,
e não só o vento...


Ou tua risada,
que espantava os passarinhos

do meu beiral.


Ai! se ao menos fosse teu o peito calmo
(de ancoradouro)

Ou, se fosse ao menos tua a mão
grudada à minha,

feito uma âncora...

foto: "Old Chains" - Antonis Sarantos