
Ai! que eu chorava...E, agarrando-me à tua camisa
num soluço convulso, eu dizia:- Não me deixe!Querendo alongar os minutos,
eu mentia
que tinha falta de ar,
que o coração me doía,
que não conseguia respirar...Desespero,
tragédia,
homicídio,suicídio, idéias funestas.No desfecho,
os teus passos lá fora:
longe, mais longe, mais longe...
Ai! que não se morre assim,
quando se deveria morrer.foto: "Uivando" - Paula Rego

Eu ia criando
um caso
e tecendo o nosso acaso.
Era
absoluta verdade
(a mentira)
contanto que nos contivesse.
Criei lembrançassaudades,
fotografias, colagens,nosso álbum de família.
Criei enredos,e tramas,eu fiz projetos, roteiros,
só não fiz o nosso fim.
foto: "Hope" - Banski

Se ainda fosse tua a sombra
que se alonga,
no último raio da tardinha que se finda
- que tarde linda!
Embora tenha aquele teu andar gingado
feito um marujo.
Se ainda fosse a tua voz que agora escuto,
e não só o vento...
Ou tua risada,
que espantava os passarinhos
do meu beiral.
Ai! se ao menos fosse teu o peito calmo
(de ancoradouro)
Ou, se fosse ao menos tua a mão
grudada à minha,
feito uma âncora...
foto: "Old Chains" - Antonis Sarantos
Ah, quando você ri,
formando covinhas
dos lados da boca...
E, quando você ri,
com a cabeça prá trás,
ajeitando o cabelo...
Ah, amor eterno amor!
Quando você ri,
sinto a obrigação,
(mesmo não sendo noite)
de enxergar estrelas.
E, mesmo tendo frio,
(do mais absoluto)
queimo eternamente no fogo da alegria.
foto: "Lovers in the moonlight" - Marc Chagall

O relógio da sala parou,
certa noite:
era tarde,
chovia e fazia frio.Sobre a mesa, as migalhas do pão,
umas sobras,
as frutas
e as taças de vinho vazias.
Desde então,
além disso, e daquilo,
deixo sempre uma lâmpada acesa.
Vai daí que você pense bem,
tenha fome,ou sede,
vai daí que acaso me queira...
foto: "Douceur du foyeur" - Jean