quinta-feira, 30 de outubro de 2008

ERAM SEIS DA TARDE






















Eram seis da tarde

(como toda tarde)
o sol já se punha;
sentei na varanda
olhando o ocaso
com um livro aberto.

O pássaro preto
que mora do lado
na casa vizinha
cantava e pulava
de um puleiro ao outro
como sempre fez.

Escutando o ronco
do trânsito pesado
lá na rodovia.

Então eu pensei
na crise econômica,
na queda da bolsa,
naquelas faturas,
no financiamento,
e no desemprego.

No passar do tempo,
e sobre o fim da vida.

E esqueci dos carros,
do pássaro preto,
do meu livro aberto,
e da noite chegando...


foto: "Bird" - Dominic Wilcox

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

E ERA ASSIM






















E era assim que eu segurava a tua mão na minha,

muito carinho,
muita doçura,
eu te sabia aqui constante e para sempre.

E era assim que ouvia o eco doce dos teus passos,
entre a cozinha,
o fogão e a mesa,
alimentando a mim e a todos que sentiam fome.

E era assim que eu escutava a tua voz à noite,
ou dando graças,
ou dando adeus,
depois de ter coberto o mundo em lãs e afetos.

foto: "Tuppence a bag" - The glass menagerie

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

MAIS OU MENOS






















Nem sempre eu fui ausente desse jeito:
esse olhar triste,
a boca triste,
e um coração que quase já nem bate mais.

Nem sempre eu fui assim tão impotente,
tão sem destino,
só com vontade
de dormir prá sempre e/ou de sumir do mapa.

Já houve um tempo em que eu também sorria,
em que eu cantava,
em que eu sonhava,
já houve um tempo em que eu acreditava em mim.

Mas, com o passar dos anos e com os tropeções,
os desenganos,
as decepções,
eu fui ficando assim, digamos, muito mais ou menos.

foto: "Sit" - Paula Rego





terça-feira, 30 de setembro de 2008

ABSTENHA-SE DO MEDO






















Abstenha-se do medo.


Segredos camuflados
numa penumbra-floresta
de fatos,
boatos,

sobre o natural das coisas,
sobre o natural da crise,

do medo

de ficar doente,
de perder o emprego,
de cortar o dedo.
Gradativamente,

incisivamente,

- nem um monstro.

Abstenha-se do medo.


1970

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

CHARME


Não me leve a mal.

Apenas,
apesar de todas as penas,
eu sobrevivi, e vou bem.

Não me leve a mal.
Embora
você decidisse ir embora,
eu fiquei aqui, mas mudei.

Não me leve a mal.
Entretanto
se você me quiser outro tanto,
não vai dar, superei o seu charme.

foto: "Boneca de trapo" - Linhas de Trapo