sábado, 10 de maio de 2008

FECUNDAÇÃO
















Sementes
que descem
em suaves círculos.

Translúcidas
fadas
no fugaz momento do beijo na terra.

Bailarinas
voam
na ponta dos pés.

Os alvos saiotes
rasgando canteiros, na fecundação.




foto: "Dandelion" - gwagner

março 2006

terça-feira, 8 de abril de 2008

A IDÉIA ESTÁ VIVA NA FORMA

















A idéia está viva na forma.


Ela é vaso,
é bacia,
a idéia é panela.

É soneto, epopéia,
versinho rimado
sem eira
nem beira.


Às vezes a idéia é um retrato
da infância,
do estranho apressado,
do sonho perdido, e do dia-a-dia.


A idéia está viva na forma.


No olho que pisca,

a fraqueza,
e a força:
a idéia mais simples também é contida
na pura e fiel natureza das coisas.

foto: "Spider Web"

quarta-feira, 19 de março de 2008

DIA ÚTIL






















Mais um dia útil
enfim
amanhece.


Há bulha de aves no fio,

pigarro de ônibus,
e os fulanos e beltranos
falando,
falando,
falando...

É hora.

Eu devo abrir a janela,
devo respirar o ar
cinzento da rodovia,
devo esquecer a noite
e a solidão detalhista que me fez companhia.

foto: "Birds on a wire" - Creative Thursday

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

METADES























Metade de mim já alcançou seu destino,
porcamente,
através de mil becos e atalhos,
do jeito que pôde.


Metade de mim está em paz,
satisfeita,
nenhum sonho, desejo ou enfado:

metade de mim está morta.

A outra metade...

A outra metade está viva,
acordada,
de noite, dentro do pesadelo,
gritando e pedindo socorro.


foto: "El sueño" - Tosar Granados

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

FINAL


Para o meu amigo PC




Ah! Quando eu cheguei no vértice da vida,
Quando mais nada à minha volta era subida,
Quando eu cheguei, por fim, ao fim da linha,
De tal maneira que não fazia diferença ir ou vir,

Quando os amores e paixões e amizades,
(toda essa gama de inescapáveis emoções)
Não mais soavam como tambores no peito,
Somente ecos tristes, pobres, e tão frágeis,

Quando tudo que eu sou e que tenho, se juntados,
Se resumiram nesse corpo e nestas roupas,
O meu chapéu, um ou dois livros, alguns poemas,
E um sentimento de não ter tido tudo que eu queria,

Ah! Quando eu parei, ao fim, no fim da estrada,
E considerei todo o bom e o mau que eu tive,
(e o que eu não tive)
Fiquei imóvel e em silêncio, feito rocha,
Feito uma árvore na beira do abismo,

Como uma flecha que ficou quieta no arco,
Como a idéia sem ação ou consequência,
Como uma sombra, ou então como o rascunho,
De tudo aquilo que sonhei, e que eu não tive!

foto: "Árvore Seca" -
André Díspore Cancian