terça-feira, 8 de abril de 2008

A IDÉIA ESTÁ VIVA NA FORMA

















A idéia está viva na forma.


Ela é vaso,
é bacia,
a idéia é panela.

É soneto, epopéia,
versinho rimado
sem eira
nem beira.


Às vezes a idéia é um retrato
da infância,
do estranho apressado,
do sonho perdido, e do dia-a-dia.


A idéia está viva na forma.


No olho que pisca,

a fraqueza,
e a força:
a idéia mais simples também é contida
na pura e fiel natureza das coisas.

foto: "Spider Web"

quarta-feira, 19 de março de 2008

DIA ÚTIL






















Mais um dia útil
enfim
amanhece.


Há bulha de aves no fio,

pigarro de ônibus,
e os fulanos e beltranos
falando,
falando,
falando...

É hora.

Eu devo abrir a janela,
devo respirar o ar
cinzento da rodovia,
devo esquecer a noite
e a solidão detalhista que me fez companhia.

foto: "Birds on a wire" - Creative Thursday

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

METADES























Metade de mim já alcançou seu destino,
porcamente,
através de mil becos e atalhos,
do jeito que pôde.


Metade de mim está em paz,
satisfeita,
nenhum sonho, desejo ou enfado:

metade de mim está morta.

A outra metade...

A outra metade está viva,
acordada,
de noite, dentro do pesadelo,
gritando e pedindo socorro.


foto: "El sueño" - Tosar Granados

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

FINAL


Para o meu amigo PC




Ah! Quando eu cheguei no vértice da vida,
Quando mais nada à minha volta era subida,
Quando eu cheguei, por fim, ao fim da linha,
De tal maneira que não fazia diferença ir ou vir,

Quando os amores e paixões e amizades,
(toda essa gama de inescapáveis emoções)
Não mais soavam como tambores no peito,
Somente ecos tristes, pobres, e tão frágeis,

Quando tudo que eu sou e que tenho, se juntados,
Se resumiram nesse corpo e nestas roupas,
O meu chapéu, um ou dois livros, alguns poemas,
E um sentimento de não ter tido tudo que eu queria,

Ah! Quando eu parei, ao fim, no fim da estrada,
E considerei todo o bom e o mau que eu tive,
(e o que eu não tive)
Fiquei imóvel e em silêncio, feito rocha,
Feito uma árvore na beira do abismo,

Como uma flecha que ficou quieta no arco,
Como a idéia sem ação ou consequência,
Como uma sombra, ou então como o rascunho,
De tudo aquilo que sonhei, e que eu não tive!

foto: "Árvore Seca" -
André Díspore Cancian

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MIGRAÇÃO












Se as aves migram
do sul para o norte, do norte pro sul,
e driblam o frio, e a fome e a morte.

Se todas as plantas,
os bichos,
e tudo, tudo em resumo,
se mexe, e se adapta,

Só tu, coração,
- só tu que não mudas,
e dia após dia,
e noite após noite, e ano após ano

tu segues batendo nessa solidão.


foto: "Flying" - Welsh Art