terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

METADES























Metade de mim já alcançou seu destino,
porcamente,
através de mil becos e atalhos,
do jeito que pôde.


Metade de mim está em paz,
satisfeita,
nenhum sonho, desejo ou enfado:

metade de mim está morta.

A outra metade...

A outra metade está viva,
acordada,
de noite, dentro do pesadelo,
gritando e pedindo socorro.


foto: "El sueño" - Tosar Granados

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

FINAL


Para o meu amigo PC




Ah! Quando eu cheguei no vértice da vida,
Quando mais nada à minha volta era subida,
Quando eu cheguei, por fim, ao fim da linha,
De tal maneira que não fazia diferença ir ou vir,

Quando os amores e paixões e amizades,
(toda essa gama de inescapáveis emoções)
Não mais soavam como tambores no peito,
Somente ecos tristes, pobres, e tão frágeis,

Quando tudo que eu sou e que tenho, se juntados,
Se resumiram nesse corpo e nestas roupas,
O meu chapéu, um ou dois livros, alguns poemas,
E um sentimento de não ter tido tudo que eu queria,

Ah! Quando eu parei, ao fim, no fim da estrada,
E considerei todo o bom e o mau que eu tive,
(e o que eu não tive)
Fiquei imóvel e em silêncio, feito rocha,
Feito uma árvore na beira do abismo,

Como uma flecha que ficou quieta no arco,
Como a idéia sem ação ou consequência,
Como uma sombra, ou então como o rascunho,
De tudo aquilo que sonhei, e que eu não tive!

foto: "Árvore Seca" -
André Díspore Cancian

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MIGRAÇÃO












Se as aves migram
do sul para o norte, do norte pro sul,
e driblam o frio, e a fome e a morte.

Se todas as plantas,
os bichos,
e tudo, tudo em resumo,
se mexe, e se adapta,

Só tu, coração,
- só tu que não mudas,
e dia após dia,
e noite após noite, e ano após ano

tu segues batendo nessa solidão.


foto: "Flying" - Welsh Art

MINHA ALDEIA


Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. (Liev Tolstói)












Se eu pintasse a minha aldeia

do jeitinho que ela é:
terra seca, terra magra,
casinhas de pau-a-pique
com telhado de sapé.

Gado esquelético,
alheio,
roça ruim
e alienada,
infância pobre e roubada,
comendo resto de lixo...

Se eu pintasse a minha aldeia
do jeitinho que ela é:
gente magra,
gente feia,

e sem sapato no pé;

sem estudo,
sem registro,
sem dinheiro,
sem passado,
sem futuro,
sem motivo para viver...

Se eu pintasse a minha aldeia
do jeitinho que ela é,
seria de duas uma:
ou virava universal,
ou ninguém ia querer ler.

foto: "Retirantes" - Cândido Portinari

TÃO SIMPLES



Foto:Amics arbres . Arbres amics












A vida,
quando a gente pensa,
é simples
como dois mais dois.

Apenas,
por vários motivos,
a gente
faz dela um dilema.

As coisas,
na sua essência,
são simples
como a necessidade.

Os anos,
passando por nós,
se enredam
e tecem a existência.


E a morte,

mais cedo ou mais tarde,
que chega
e acaba com tudo.

Fácil,
sem grandes esquemas,
simples
como dois mais dois.