quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

MINHA ALDEIA


Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. (Liev Tolstói)












Se eu pintasse a minha aldeia

do jeitinho que ela é:
terra seca, terra magra,
casinhas de pau-a-pique
com telhado de sapé.

Gado esquelético,
alheio,
roça ruim
e alienada,
infância pobre e roubada,
comendo resto de lixo...

Se eu pintasse a minha aldeia
do jeitinho que ela é:
gente magra,
gente feia,

e sem sapato no pé;

sem estudo,
sem registro,
sem dinheiro,
sem passado,
sem futuro,
sem motivo para viver...

Se eu pintasse a minha aldeia
do jeitinho que ela é,
seria de duas uma:
ou virava universal,
ou ninguém ia querer ler.

foto: "Retirantes" - Cândido Portinari

TÃO SIMPLES



Foto:Amics arbres . Arbres amics












A vida,
quando a gente pensa,
é simples
como dois mais dois.

Apenas,
por vários motivos,
a gente
faz dela um dilema.

As coisas,
na sua essência,
são simples
como a necessidade.

Os anos,
passando por nós,
se enredam
e tecem a existência.


E a morte,

mais cedo ou mais tarde,
que chega
e acaba com tudo.

Fácil,
sem grandes esquemas,
simples
como dois mais dois.



terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

EU NÃO SEI DE ONDE EU VIM



Eu não sei de onde eu vim,
eu não sei para onde vou,
só sei que sou.


Que circunstâncias haverá
entre o começo e o fim?

Talvez eu deixe uma esteira,
a cauda do meteoro.

Talvez deixe algum fruto,
uma obra-prima, um sinal.

Ou talvez eu só saiba a resposta
no último e exato minuto

Sei lá.


foto: "Fractal" - Jock Cooper

domingo, 3 de fevereiro de 2008

SÓ EU

















Só eu posso segurar a tua mão

na escuridão
da meia-noite
da vida.

Só eu que sei do que tu gostas,
ou não gostas,
a comida
e a bebida.

Eu, que entendo quando falas,
ou calas,
a alegria
e a tristeza.

Eu, que aceito quando partes
e voltas,
e me tratas
de porto.

foto: "Barco" - Sonhos do Baú

domingo, 20 de janeiro de 2008

O MINUTO


















Este

puto
e exato
minuto
que agora nos passa batido,
talvez
amanhã
faça falta.

Talvez...
seja mais que um minuto,
seja eternidade,
o não-nunca,
o sim-sempre,
a vida que passa, passando.

Passando, passando, passando...

Lá, muito além.

Do tal do vale de lágrimas,
do monte de tédios,
no equidistante,
no tarde, demais.



Foto: "Engrenagens" - Petterson Menezes Tonini