quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A MÁQUINA


















Tinha um raio comprido de sol,
quentinho,
fininho,
entrando no vão da manhã,

na greta da minha janela.

Um perfume gostoso no ar,
de rosa,
de cravo,
do bolo assando no forno
na nossa casinha da vila.

Um gostinho de fruta
madura,
de ameixa,
goiaba,
de jabuticaba e de manga,
na boca e dentro da alma.


E o barulhinho insistente
da roda
da máquina:
zig-zag, alinhavo e pesponto,
costurando a minha alegria.





foto: "Sewing machine" - Janet Karam


terça-feira, 25 de dezembro de 2007

CUIDADO


















Cuidado com os corações

partidos
não existem peças avulsas
só comprando o jogo inteiro.

Cuidado com as recordações
quebradas
não se conseguem de novo

outras lembranças iguais.


Muito cuidado com o tempo
perdido
pois quando menos se espera
ele passou: nunca mais!

foto: "Illusion" - Rua dos Contos

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

UM BAITA ENGANO

Um dia eu saí da tua vida,
de mãos vazias,
porque sem isso, eu morria.

Deixei para trás as algemas,
do hábito,
da conveniência e do medo.

Deixei a garrafa vazia,
o cigarro aceso,
e aquela impressão de naufrágio.

Não trouxe nada comigo,
só a absoluta certeza
de que fomos um baita engano.

ESSÊNCIA






















A memória
oculta

no meio do monte de nervos,

procura
encontrar o meu fio na meada.


O neurônio,
a sinapse,
o arquivo onde fica a lembrança.

Tateio
no escuro,
e arranho o controle remoto.

O meu pêndulo
oscila,

eu inspiro, eu expiro,
eu sonho,
e é porisso talvez que eu exista.




foto: "Machine" - Web

domingo, 18 de novembro de 2007

O VELÓRIO DA POESIA












Tem gente que diz que a poesia morreu
com virada do século,
com a era atômica
e com a informática.

Que o homem moderno está cético,
e muito mais prático,
bem mais cibernético,
bem menos romântico.

Que o poeta tornou-se anacrônico,
fora de contexto,
um ente supérfluo,
algo descartável.

Que ninguém mais gosta de ler poesia,
da linguagem poética,
dos seus badulaques,
e suas flores secas.

Algumas pessoas até foram ao velório:

vestiram de preto,

choraram um pouquinho,

(e eu estava entre elas).