domingo, 18 de novembro de 2007

O VELÓRIO DA POESIA












Tem gente que diz que a poesia morreu
com virada do século,
com a era atômica
e com a informática.

Que o homem moderno está cético,
e muito mais prático,
bem mais cibernético,
bem menos romântico.

Que o poeta tornou-se anacrônico,
fora de contexto,
um ente supérfluo,
algo descartável.

Que ninguém mais gosta de ler poesia,
da linguagem poética,
dos seus badulaques,
e suas flores secas.

Algumas pessoas até foram ao velório:

vestiram de preto,

choraram um pouquinho,

(e eu estava entre elas).

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

SONHO DE NOVEMBRO



















Hoje eu sonhei
um sonho bom,
assim, do nada,
fazia tempo que eu não sonhava...

Íamos juntos
e de mãos dadas,
era novembro
- nos sonhos é sempre novembro.

A rua molhada
e cheia de luzes,
porque chovia,
pois sempre chove nos sonhos.

Pisando as flores
amarelinhas
das tipuanas
que forram o chão da cidade.

Os dois felizes,
os dois sorrindo
e de mãos dadas,
ainda que só em novembro.



foto: "Sleeping Woman" - Colin Watson










segunda-feira, 22 de outubro de 2007

UMA SAUDADE







Uma saudade

das tardes calmas
do bairro pobre
da minha infância.

Do quase-tédio
do meu quintal,

da rua estreita
e do chão de terra.

Das ameixeiras,
dos mandrovás e das taturanas.

Dos vagalumes
e das minhocas e das cigarras.

Dos passarinhos,
das nuvens brancas e das estrelas.

Uma saudade
de ser criança
só um pouquinho,
só um pouquinho...


foto: "Fenêtre" - Jean

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

SÓ POR HOJE


Só por hoje,

Eu não vou sentir tua falta.
Eu não vou sentir saudade.

Eu não vou falar teu nome.
Eu não vou roer as unhas.
Não vou cantar teus boleros.

Só por hoje,
Eu não vou beber teu vinho.
Não vou fumar teus cigarros.

Eu não vou chorar à noite.
Eu não vou dormir chorando.
Não vou nem querer morrer...


terça-feira, 11 de setembro de 2007

SUPONHAMOS






















Suponhamos que eu esqueça de nós dois,

das nossas músicas,
dos nossos sonhos, suponhamos que eu esqueça.

Suponhamos que eu jamais fale o teu nome,
que eu já nem pense,
e que nem queira mais morar no Canadá.


Que eu não leia todo dia os mesmos livros:

Pablo Neruda,

Robert Frost, Herman Hesse, García Márquez.


Que eu não mais beba vinho tinto ao pé do fogo,

e nem conhaque,

nem coma queijo provolone e pão italiano.


Que eu já não fume, e nem caminhe todas tardes,

até o Trianon,
e nem assista a todos filmes do Almodóvar...

Ainda assim,
eu não consigo te esquecer,
ainda assim,
sempre haverá algo que evoque o que nós fomos.

foto: "Amapola" - Legabal