segunda-feira, 22 de outubro de 2007

UMA SAUDADE







Uma saudade

das tardes calmas
do bairro pobre
da minha infância.

Do quase-tédio
do meu quintal,

da rua estreita
e do chão de terra.

Das ameixeiras,
dos mandrovás e das taturanas.

Dos vagalumes
e das minhocas e das cigarras.

Dos passarinhos,
das nuvens brancas e das estrelas.

Uma saudade
de ser criança
só um pouquinho,
só um pouquinho...


foto: "Fenêtre" - Jean

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

SÓ POR HOJE


Só por hoje,

Eu não vou sentir tua falta.
Eu não vou sentir saudade.

Eu não vou falar teu nome.
Eu não vou roer as unhas.
Não vou cantar teus boleros.

Só por hoje,
Eu não vou beber teu vinho.
Não vou fumar teus cigarros.

Eu não vou chorar à noite.
Eu não vou dormir chorando.
Não vou nem querer morrer...


terça-feira, 11 de setembro de 2007

SUPONHAMOS






















Suponhamos que eu esqueça de nós dois,

das nossas músicas,
dos nossos sonhos, suponhamos que eu esqueça.

Suponhamos que eu jamais fale o teu nome,
que eu já nem pense,
e que nem queira mais morar no Canadá.


Que eu não leia todo dia os mesmos livros:

Pablo Neruda,

Robert Frost, Herman Hesse, García Márquez.


Que eu não mais beba vinho tinto ao pé do fogo,

e nem conhaque,

nem coma queijo provolone e pão italiano.


Que eu já não fume, e nem caminhe todas tardes,

até o Trianon,
e nem assista a todos filmes do Almodóvar...

Ainda assim,
eu não consigo te esquecer,
ainda assim,
sempre haverá algo que evoque o que nós fomos.

foto: "Amapola" - Legabal

domingo, 9 de setembro de 2007

ONDE ESTAVAS?















Onde estavas, ontem à noite?
Eu não escutei o teu passo,
eu não ouvi tua voz,
- ninguém chegava!

Onde estavas, onde estavas?
Chegou a noite escura,
vieram estrelas ao céu,
- eu não te achava!

Onde estavas, meu amor?
Fazia frio,lá fora,
fazia frio aqui dentro,
- eu te chamava!


foto: Gregório Gruber

2007


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

PODE SER INGÊNUO















Pode ser ingênuo,

pode ser piegas,
pode ser efeito do amanhecer...

Mas, a questão toda,
(em dias como hoje)
é que a alma busca algo bem maior,
algo superior,
e definitivo.

Algo que a conforte
e a faça esquecer
o seu real tamanho.

Em dias como hoje,
em que o sol batalha perfurando as nuvens,
querendo nascer;
em dias como hoje,
em que mal se ouve o canto dos pássaros,
(devem ser pardais)
ainda nos ninhos,
e que o mundo vibra sob os nossos pés.

Pode ser ingênuo,
pode ser piegas,
mas, até minha alma, que se achava incrédula,
se achava sozinha,
(em dias como hoje)
sente que pertence a um momento único
e sorri, e canta,
e faz ... poesia.

2006

foto: "Céu do Jardim Olympia" - LuizaMoony