sábado, 1 de setembro de 2007

CHEGA!



Chega de indagar sobre a razão das coisas,

chega de tentar ver o motivo oculto,
não vou mais passar minhas noites em claro,
não vou mais viver com os olhos no horizonte.

Eu quero respostas, eu quero certezas,
quero segurança, a bússola e um mapa,
pelos quais navegue, sem medo de nada
pelos mil caminhos que vêm pela frente.

Chega de esconder a minha eterna dúvida
debaixo da máscara de super-herói;
de tentar mostrar que eu me sinto o máximo
quando na verdade eu me sinto o mínimo.

2006

A COISA



Eu vejo uma coisa,
tu vês outra,
porque uma coisa é sempre mais do que ela mesma:
ela é ela
mais a relatividade da coisa.

Ela é a massa,
energia,
mais não sei quantas vezes a aceleração.


Tu olhas,

ela transmutou,
já é outra coisa.

Ver
é recriar o mundo,
é interagir com o belo,
é interagir com o feio,
é comungar com o todo, sentindo-se único.

2006

O CHEIRO DAS COISAS






















Há cheiros que evocam lembranças,

os cheiros da infância,
cheiro de lancheira,
de lápis de cor,
cheiro de maçã,
e o cheirinho bom do café da manhã.

Nada nesse mundo tem o cheiro igual:
cada coisa cheira bem,
ou cheira mal.

O cheiro, portanto, faz parte do ser
ou mesmo do não-ser.

Então, sentir o perfume rosado da rosa
é um quase que vê-la,
é um quase que tê-la.


foto: white rose

2006

REFLEXO


Da minha janela eu olho para o outro,

que toca piano,
que fuma cachimbo,
que sai na sacada no meio da tarde,
que rega um gerânio,
e olha o ocaso com o olhar perdido.

Da minha janela eu espio o outro,
que fala sozinho,
que acende as luzes,
que lê sempre um livro de capa amarela,
que olha para a lua,
e solta um suspiro e que vive sozinho.

Da minha janela eu entendo esse outro,
que odeia a rotina,
que odeia o costume,
que fica acordado no meio da noite,
que olha o infinito,
e que me acompanha como o meu reflexo.

janeiro 2006

DIÁLOGO


Eu perguntei ao poeta:

- Poeta, o que é a vida?
e o que ela, no fim, nos revela?

- A vida?
(disse o poeta)
Nada existe mais fugaz!

A vida é algo tão volúvel
como a lembrança da luz
de uma vela.

Ela sempre nos abandona,
se vai por qualquer motivo,
e mesmo  sem ter motivo,
e quando menos se espera.

A morte,
(por outro lado)
é uma velhinha exigente,
metódica e autoritária,

mas inevitavelmente fiel.

2005