sábado, 1 de setembro de 2007

O CHEIRO DAS COISAS






















Há cheiros que evocam lembranças,

os cheiros da infância,
cheiro de lancheira,
de lápis de cor,
cheiro de maçã,
e o cheirinho bom do café da manhã.

Nada nesse mundo tem o cheiro igual:
cada coisa cheira bem,
ou cheira mal.

O cheiro, portanto, faz parte do ser
ou mesmo do não-ser.

Então, sentir o perfume rosado da rosa
é um quase que vê-la,
é um quase que tê-la.


foto: white rose

2006

REFLEXO


Da minha janela eu olho para o outro,

que toca piano,
que fuma cachimbo,
que sai na sacada no meio da tarde,
que rega um gerânio,
e olha o ocaso com o olhar perdido.

Da minha janela eu espio o outro,
que fala sozinho,
que acende as luzes,
que lê sempre um livro de capa amarela,
que olha para a lua,
e solta um suspiro e que vive sozinho.

Da minha janela eu entendo esse outro,
que odeia a rotina,
que odeia o costume,
que fica acordado no meio da noite,
que olha o infinito,
e que me acompanha como o meu reflexo.

janeiro 2006

DIÁLOGO


Eu perguntei ao poeta:

- Poeta, o que é a vida?
e o que ela, no fim, nos revela?

- A vida?
(disse o poeta)
Nada existe mais fugaz!

A vida é algo tão volúvel
como a lembrança da luz
de uma vela.

Ela sempre nos abandona,
se vai por qualquer motivo,
e mesmo  sem ter motivo,
e quando menos se espera.

A morte,
(por outro lado)
é uma velhinha exigente,
metódica e autoritária,

mas inevitavelmente fiel.

2005

NINGUÉM


Ninguém!

Eu bato na porta, e ninguém,
ninguém em casa, ninguém!
A noite chega.

Chove.
Escuto a chuva que insiste
lá fora, sozinha, sem graça.
A noite segue.

Ninguém!
Na cama larga comigo,
na noite longa comigo.
Só a chuva.

2007

terça-feira, 28 de agosto de 2007

NA ÚLTIMA VEZ















Na última vez que nos vimos
chovia,
e as folhas rodavam no vento
da alameda,
como as palavras fugiam da nossa boca
molhada.

Na última vez que nos vimos
era inverno,
tu usavas o pulover vermelho,
tão surrado,
como nossas almas, que sangravam
tão feridas.

Na última vez que nos vimos,
no silêncio,
os teus passos seguiram ecoando
na calçada
depois que partistes rumo ao encontro
com teu ego.

foto: "Chuva" - Osvaldo Goeldi


julho 2005