terça-feira, 28 de agosto de 2007

NA ÚLTIMA VEZ















Na última vez que nos vimos
chovia,
e as folhas rodavam no vento
da alameda,
como as palavras fugiam da nossa boca
molhada.

Na última vez que nos vimos
era inverno,
tu usavas o pulover vermelho,
tão surrado,
como nossas almas, que sangravam
tão feridas.

Na última vez que nos vimos,
no silêncio,
os teus passos seguiram ecoando
na calçada
depois que partistes rumo ao encontro
com teu ego.

foto: "Chuva" - Osvaldo Goeldi


julho 2005

QUANDO EU VOLTAR


Quando eu voltar,

eu quero achar a porta aberta.

E recordar o cheiro bom
da tua comida.


De bolo assando,
e de lavanda nas gavetas,

quero deitar
na tua cama e descansar,
igual o filho que partiu, e que retorna.

Quero ficar
na tua casa, feito sombra,

Quero jurar: não vou embora,
nunca mais!

julho 2005

APRENDIZADO



















O bebê imita o que vê:
fragilzinho,
desdentado,
fedendo a leite coalhado.

Aprende o medo do escuro,
o temor,
o ódio
e o amor.

Aprende tudo com os pais:
o amor,
o ódio
e a eterna cara de espanto.


foto: "The devil you know" - Chris Peters

julho 2005

À DONA MARIA


À Dona Maria...

a dona-de-casa,
dona da pensão, a mulher de verdade
- a boa mulher.

À mulher dedicada
e silenciosa,
a que tudo ouve, tudo compreende,
- ou faz que entende.

À que dorme sozinha
na sua gaiola,
e nem imagina que exista outro mundo
- que não seja o dela.

agosto 2005

NOITE E DIA



Você se lembra do quartinho

alugado?

e nós amando dia e  noite,
de mãos dadas,
alma limpa, noite e dia?


Você se lembra aquele dia
que chovia?

e nós corríamos na rua
de mãos dadas,
a boca azul, noite e dia?

Você lembra a despedida
tão sentida?

e nós sofrendo pela vida
mãos vazias,
alma triste, noite e dia?


agosto 2005