terça-feira, 28 de agosto de 2007

ESPELHO


Neste exato minuto

em que eu e você
estamos aqui nos olhando
e amando
e odiando

Por sermos tão diferentes
ou por sermos tão iguais
chegou alguém
alguém partiu
ou acabou de dormir
ou acabou de acordar

Neste minuto
você fecha os olhos
eu tampo os ouvidos
do outro lado do espelho
do outro lado da história
e ninguém vê a diferença
Nos estranhamos
Nos desfrutamos
querendo entender
querendo ser um, mas sem ser.

agosto 2005

sábado, 25 de agosto de 2007

ODE À MULHER



Ó doce mulher,

olhos de corsa,
mãos hábeis de fada madrinha,
e língua persuasiva.

Ó busto macio,
ventre de barro
aonde afundam todas as ânsias,
como as sementes.

Ó gota de orvalho,
rosário nas ramas,
onde o pássaro faz o seu ninho,
e o amado se aninha.

Ó doce delícia,
lambuzada de mel,
fina teia em torno da presa,
suave e definitiva.

Ó pequena flor
aberta no frescor da manhã,
tens o amor nas dobras da mão
e gosto de segredo.

setembro 2005

ENQUANTO EU TE ESPERAVA




Enquanto eu te esperava
aquela rosa murchou,
ninguém cortou mais a grama
e nem pegou o jornal.

Enquanto eu te esperava
juntou a correspondência
e as nossas contas venceram:
o ano acabou.

Enquanto eu te esperava
em desalinho
e solidão,
a vida passou.

setembro 2005

MONOTONIA


O que acontece com o povo
quando chove

e a chuva teima em ficar?

As roupas se tingem de cinza,
guarda-chuvas,

aparecem aqui e acolá.

Um ônibus passa na poça
e mancha
a saia da moça.


O que acontece nas tocas,
e grutas,
e dentro dos ninhos?

A natureza invagina e recolhe
a fartura,
e fica monótona.

Só fica o
barulho dos pingos
chatinhos,
pingando, pingando, pingando...


setembro 2005

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

MANHÃ NA VILA









Eu adoro a manhãzinha
ingênua e cristalina,

que enfeita a minha vila
adormecida.

E o orvalho que escorre
daquele ramo de rosa,

onde um passarinho canta
no mesmo tom.

E aquele gato no muro
esfregando-se, indolente,
esquentando-se no sol
da manhãzinha.


E o galo cantando, ao longe,
deslocado e irreal,

acordando a minha vila,
adormecida.

outubro 2005